sexta-feira, 28 de setembro de 2012

TASCAS, TABERNAS… E O BIGODES


Já perdi a conta aos restaurantes que abriram no país com “taberna” e “tasca” no nome. Ele é Taberna Moderna, Taberna Ibérica, D. Taberna, Tasca da Esquina, Taberna XXL, Tasca Ideal, Taberna Vintage, Taberna Tosca, Taberna Portuguesa, Taberna do Chiado, Taberna Argentina, Tasca Lusa, Tasca deste e daquele e por aí afora. Nada contra, exceto no conceito: não são tascas nem tabernas! Ora vejamos o que nos diz o dicionário da Porto Editora acerca deste assunto:

Taberna
1. loja onde se vende vinho a retalho; baiuca
2. casa de comidas e bebidas servidas a baixo preço; tasca (Do latim taberna-, «barraca»)

Tasca
1.ato ou efeito de tascar
2.estabelecimento onde se serve vinho e refeições ligeiras a baixo preço; taberna (Do caló tasca, «idem»)

Bem sei que a ideia é “recriar”, “inovar”, “modernizar”, tudo bem, mas não deixa de ser um bocadinho chato irmos a estes sítios e não nos venderem vinho a retalho e ainda para mais pedirem-nos uma fortuna por uma dose de moelas ou de iscas com elas.
Nunca fui muito nesta cantiga: se eu quiser uma tasca ou uma taberna vou ao Lagoa ali ao pé do estádio. É isto e aquela história do “Jante ou almoce e sinta-se em casa” ou “comida da nossa avó”…pois, mas eu quando vou comer fora é precisamente por não querer comer em casa e pretender experimentar outra comida que não seja a da minha avó.

Quem ainda não caiu na tentação em mudar de nome foi “O Bigodes”, restaurante localizado na Moita do Gavião (Benedita), perto da Venda das Raparigas (só pelo nome das localidades já merecia uma visita), mesmo à beira da estrada nacional 1, agora ao que parece IC2. Esta nossa via secundária, uma espécie de Route 66, que liga Lisboa ao Porto tem muito que se lhe diga e o que não faltam aqui são boas tascas e tabernas. Mas não é o caso. “O Bigodes” é um restaurante “Aberto 24 horas”.

São raras as viagens entre Lisboa e Leiria que eu não pare no Bigodes para comer uma bifana, uma sopa da pedra e beber um Sumol de laranja… ou ananás, tanto faz. Não conheço melhor bifana no pão e acredito que existe alguma complexidade na confeção desta obra-de-arte. Não é só fritar a febra, meter no pão e já está. Tenho uma ideia dos ingredientes. Penso que leva alho, banha de porco, sal, pimenta, vinho branco, talvez colorau, mas depois há ali qualquer especiaria que faz toda a diferença. Um dia ainda lhes pergunto. Uma coisa é certa: pão da Benedita acabado de sair do forno, com aquele naco de febra envolto em molho de “três dias”, pulverizado por mostarda Paladim (acho que ainda lhe acrescentam vinagre) e ainda com o picante da casa, fazem daquela sandes uma autêntica especialidade em qualquer lado. E ao balcão. A bifana tem de ser comida ao balcão. A acompanhar não há cá batatas fritas ou saladinhas, para acompanhar cai sempre bem uma rica sopa da pedra, que se tivermos sorte pode ser sublime mas também pode ser só boa, depende da água que meterem na sopa. Aqui não vamos ao engano: bifana é bifana, pão é pão, vinho é vinho, sopa é sopa e restaurante é restaurante. Mesmo o Bigodes não é tasca nem é taberna, quando muito seria casa de pasto (estabelecimento de nível modesto onde servem refeições in Dicionário Porto Editora).

Se passarem na Moita do Gavião não deixem de parar no Bigodes e se por acaso, por um mero acaso, não gostarem de bifana ou sopa da pedra, atirem-se sem receio ao cozido à portuguesa (todos os dias, a qualquer hora), aos filetes, aos panados, ao frango no churrasco, aos carapaus fritos ou a algo mais rebuscado da ementa. Garanto-vos que aquela boa gente não vos deixará ficar mal.

Depois da refeição, e como é comum neste tipo de restaurantes à beira da IC2, o melhor é comprar algo para levar connosco. A oferta é muita, boa e variada: pão-de-ló, pastéis de nata, raspadinhas, isqueiros, facas, canivetes, cutelos, canecas com o nome da prima, cassetes, filmes (sim, desses…) ou jogos variados.
Eu não me separo do meu canivete azul que lá comprei há uns tempos atrás e que tanto jeito me dá para descascar maçãs e cortar a chouriça!

(Texto publicado na rubrica SABOR do Jornal de Leiria no dia 27 de setembro 2012)

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