terça-feira, 22 de novembro de 2011

O ESTADO DAS NOSSAS COISAS

Até estava muito povo para almoçar, mas não desisti e em 20 minutos estava a ser servido por uma senhora muito simpática que trata toda a gente por «filho». Comecei com uma sopa de legumes: um caldo aveludado com abundantes folhas frescas de espinafres. Para seguir em frente escolhi uns filetes de pescada em fritura impecável acompanhados por um belíssimo arroz de cenoura e ervilhas: solto e em cozedura perfeita. Acompanhei com um óptimo sumo de laranja e prescindi da fruta fresca que parecia oriunda ali do Oeste. Ambiente jovem e cosmopolita em espaço amplo e decoração minimalista.
No que toca a filetes até podia ser um crítico qualquer a falar de um Pap’Açorda, mas não, está-se mesmo a falar da cantina da Universidade Nova de Lisboa! Por uma refeição completa paguei 2.40€!

No outro dia marquei uma consulta no Centro de Saúde de Alvalade sem qualquer tipo de urgência e, em 8 ou 10 dias, lá estava eu à hora combinada a ser atendido por uma excelente médica que me passou os habituais exames de rotina. Nem 20 minutos esperei pela consulta. Para além disso a médica de família marcou lá no computador uma consulta no Hospital central e passados 8 dias recebo uma carta em casa para comparecer no Pulido Valente em determinado dia. Recomendavam a chegada meia hora antes e assim fiz. Tudo funcionou na perfeição e fui observado pelo médico da especialidade à hora marcada! No centro de saúde paguei 2.25€ e no hospital 4.60€!

Há cerca de um mês fui tratar do cartão de cidadão ali para os lados das Laranjeiras. Tirei a senha e fui logo chamado para tirar a fotografia, as medidas, meter o dedo lá numa máquina e assinar. Nem sei quantas pessoas lá estavam, mas eram muitas. Depois só tinha de aguardar para dar continuidade ao processo. Esperei uns 45 minutos (até deu para observar a Bárbara Guimarães e tudo) e tratei do resto com uma funcionária muito profissional e competente. Sem dar pelo tempo passar já tinha uma carta em casa a dizer para ir levantar o cartão. Acho que paguei 15€!

Andaram-se vidas inteiras a estruturar um Estado Providência, anos a optimizar os serviços públicos e a formar profissionais competentes e agora vem aí uma geração de políticos armados em neoliberais a querer dar cabo disto tudo?

Dizem que isto assim não funciona, não é sustentável, o pessoal tem de pagar a sério por estes serviços, o Estado está falido, a dívida pública, bla, bla, bla. Então e gerirem a coisa pública como deve ser, não? E a dívida dos privados? Não conta para esta história da crise? O BES a tomar conta dos centros de saúde e hospitais é que é? Ou é a gente séria da angolana Sonangol que vem cá pôr isto a funcionar como deve ser?

Eu cá, já digo como dizia Saramago: «Privatizem a puta que vos pariu!»

2 comentários:

  1. Faltam relatos destes para valorizarmos os serviços públicos e com eles as pessoas que neles servem. "Eu cá" cada vez gosto mais do Saramago :)!

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  2. Faço minhas as palavras sábias de Saramago!
    Parabéns ainda pela tua escrita, fina e de muito bom gosto!
    bjs

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