segunda-feira, 5 de agosto de 2013

SABORES DO ACASO


Não sou das pessoas mais viajadas do mundo, mas lá vou dando os meus passeios além-fronteiras. Conheço um bocadinho de África, um bocadinho da América Latina, mas é pela velha Europa que me vou orientando, afinal é onde um tipo vive e onde as coisas ficam mais à mão. Por minha vontade já tinha ido até ao Oriente, médio ou extremo, mas ainda não calhou. E à América, também gostava de fazer por lá umas milhas. Um dia.

O meu primo Nuno, ciclo-vagabundo de vocação e que anda há mais de 20 anos a pedalar por esse mundo (neste momento acho que anda pelo Vietname…) tem residência em Londres, cidade que muito prezo, e um dia, à volta de uma pint num Pub de alto rendimento em Camden Town, comentava comigo: “As capitais europeias são todas iguais!” Isto já foi há uns bons anos e aquilo ficou-me na cabeça. É que não deixa de ser verdade: se formos a ver, o McDonald’s está sempre “naquele sítio”, há sempre a rua das lojas de marca, o bairro underground, a zona dos museus, o aeroporto a 45 minutos do centro, etc, etc. Por esta e por outras é que raramente uso guia para visitar as capitais europeias. Mais volta menos volta e lá daremos com o museu, com a famosa praça ou com o café dos poetas.

Viajar implica surpresa, improviso e aventura. Descoberta. E é aqui que eu queria chegar: os melhores sítios, aqueles que nos deixam boas memórias e com reais impressões do lugar que visitamos, são aqueles que descobrimos por acaso. Até podemos constatar depois que o Lonely Planet ou o American Express já passaram por lá, mas fomos nós no fundo, lá bem no fundo, que os descobrimos.

Certo dia, passeava eu pela Serra da Gardunha quando decidi rolar mais uns quilómetros e só parar em Salamanca, sempre com a cumplicidade da Patrícia, que está sempre pronta para as curvas. Chegámos a meio da manhã, visitámos a parte velha da cidade, universidade e tal, até que chegou o momento de almoçar. Procurámos, procurámos e nada nos cativava. Só encontrávamos cafés espanhóis com a máquina de casino à porta e com aspeto pouco convidativo. Já cansados e com a hora do almoço a chegar às 4 da tarde, vimos um restaurante com ar simpático e decidimos entrar. Nada previa o que viríamos a encontrar. Dentro da barra, um “Manolo” barbudo de cigarro ao canto da boca dava indicações para a cozinha. Na sala uma algazarra infernal e em cima da mesa uma garrafa de água Voss. Mas espera lá? Voss? Pergunto eu à Patrícia. Então mas os gajos têm água Voss logo a abrir? Deixa cá ver a ementa, mas é! Foi então que demos conta do nível: estávamos num estabelecimento topo de gama em ambiente de taberna ibérica. Pedimos um solomilho e um prato de veado com frutos silvestres. Até hoje nos lembramos de voltar a Salamanca só para regressar à “ Casa Manolo”, acho que era assim que se chamava o formidável restaurante.

Mas há mais. Em Paris, ali para os lados dos Champs-Élisées e depois de vermos uma exposição extraordinária no Grand Palais do Picasso e seus mestres, deu-nos a fominha e toca a procurar um restaurante. Dessa vez, levava comigo um guia American Express. É verdade. Pesquisámos a zona no dito livro e optámos por atacar um restaurante basco altamente recomendado e a preços porreiros. Acontece que o guia tinha para aí uns dez anos e quando chegámos ao local, em vez de gastronomia basca, existia um restaurante com a ementa assinada por um Chef famoso e com preços estratosféricos. Meia volta, volver. Em boa hora. Logo ao virar da esquina demos de caras com uma Brasserie, bem parisiense, que nos proporcionou uma excelente refeição francesa: C’est vrai! Ostras (as melhores são mesmo as francesas, venham elas de onde vierem. Mesmo em Lisboa, é na Brasserie Flo do Tivoli que se comem as melhores Ostras), vinho branco Riesling, Javali, Fillé Mignon e vinho tinto Bourdeaux. A casa chama-se Chez André (na foto) e numa rápida pesquisa no Google, verifico que ainda existe e recomenda-se.


Por acaso, encontrei estes dois restaurantes maravilhosos em Salamanca e Paris, mas podia ainda recordar a taberna espanhola que descobri em Londres num beco perdido junto à Liverpool Street, no bistrôt com umas tostas de salmão divinais numa travessa escondida junto ao Museu Rembrandt, em Amsterdão, no esparguete com lagostins no refundido Di Paolo em Camogli, Itália, ou a Weissbier que entornei num bar de Berlim ocidental junto ao desativado aeroporto de Tempelhof. É no acaso e na descoberta que está a piada de viajar. São estes os sabores que ficam connosco, não os sabores do Hot Dog da cafetaria do museu ou do Kebab junto à Zara.

(Texto publicado na rubrica SABOR do Jornal de Leiria no dia 1 de Agosto de 2013)

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