sexta-feira, 3 de maio de 2013

UMA VOLTA POR LISBOA


(img©patricia antonio)

Nem sempre tenho na ponta da língua um tema para esta rúbrica SABOR. Vai daí que costumo fazer uma espécie de sondagem junto da malta que me rodeia. Uns dizem-me logo para me enfiar nas Cortes e escrever um roteiro com os restaurantes e petiscos da zona; outros avançam com um “Vai do Pedrógão à Nazaré e escreve sobre o peixe e marisco que encontrares pelo caminho” e ainda há aqueles que me nomeiam mil e um restaurantes onde eu havia de ir, ora porque têm a melhor comida da região, ora porque é castiço ou atascado como eu nunca vi. Nestas coisas, sou todo ouvidos – nada melhor do que seguir os conselhos de pessoal habituado a patuscadas. Mas desta vez lançaram-me um desafio ligeiramente diferente: ”Olha lá, porque é que não escreves um roteiro sobre Lisboa com meia dúzia de sítios onde um leiriense deva ir?” Achei a ideia tão boa que até já estou a pensar numa próxima edição fazer o mesmo com o Porto, embora no Norte precise de alguma assessoria, o que diga-se de passagem, não será muito difícil de obter. Não é assim Pedro Neves? Mas vamos então dar uma volta por Lisboa e passar por essa meia dúzia de locais com paragem obrigatória, sem qualquer ordem de preferência. São todos de primeira categoria e, de uma maneira ou de outra, muito alfacinhas.

MERENDINHA DO ARCO
Se Monsanto é o pulmão de Lisboa, o Rossio é o coração, e é bem junto ao coração que está uma das melhores tascas (das verdadeiras) de Lisboa. Na Merendinha, com uma nota de 10 euros comem-se pratos tão bons como Dobrada, Iscas, Torresmos, Caldo de Camarão, Cozido à Portuguesa ou o Bacalhau com Grão, tudo bem acompanhado pelo jarrinho de tinto da casa. As mesas são todas corridas e arriscamo-nos a dividir a travessa com o Presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau ou com os funcionários mais antigos da Carris ou da CP. Mas atenção, ali não há jantares para ninguém. Ao almoço é que é bom.

Rua dos Sapateiros 230

GRANDE PALÁCIO HONG KONG
Há restaurantes chineses e restaurantes chineses. O Grande Palácio tem pouco a ver com o crepe, o porco doce e a carne de vaca com molho de ostras que todos nós conhecemos. Até poderão ter esses pratos na ementa, mas não é isso o que a clientela procura. Ali vai-se para degustar comida típica cantonesa ou cozinha tradicional chinesa à séria no meio da comunidade chinesa que vive em Lisboa. Recomenda-se a sopa ácida picante e o dim-sum, comida especial ao vapor com mais de mil anos de história. Se for daqueles leirienses típicos, que vai à Portugália da Almirante Reis desde sempre, esqueça lá isso! Atravesse mas é a rua que o bife já não é o que era. Por 15 euros vai a Hong Kong e volta numa hora e meia.

Rua Pascoal de Melo, 8A

TOSCANA
O Restaurante Toscana modernizou-se, mas a essência da coisa está lá, ou seja, o peixe fresco a assar na grelha. Não há em Lisboa melhor sítio para comer peixe fresco (talvez o Mercado do Peixe em Monsanto lhe faça frente, mas aqui só com a carteira recheada de “dólares angolanos” – não se come por menos de 30/40 euros). Já no Toscana, por 12 euros, come-se um linguado grelhado de respeito e, por menos ainda, uma dourada do Atlântico. Não se admire se pedir 2 linguados e o empregado de bigode farfalhudo gritar para a cozinha: “São 20 linguados!” Ali é sempre a multiplicar por 10. Vá-se lá saber porquê?!

Travessa Sacramento a Alcântara, 70-98

BICA DO SAPATO
Nem só de tascas vive um homem. Às vezes apetece gastar aquilo que não temos e embarcar em voos de primeira classe. Dias não são dias e uma refeição na Bica do Sapato de vez em quando só faz é bem ao estômago e ao espírito. Mas também não se pense que é uma fortuna. É carote, mas quantas vezes largamos 25 e 30 euros nos sítios mais improváveis e saímos de lá insatisfeitos? Ao menos na Bica do Sapato é trigo limpo farinha amparo: paga-se a qualidade. Qualquer dos espaços (sushi, cafetaria, restaurante, esplanada) do Restaurante é altamente recomendável, mas o momento alto da semana é ao domingo com o fabuloso Brunch-buffet das 12h30 às 16h00 a 25 euros por pessoa. Só vos posso dizer que é mesmo, mas mesmo, muito bom!

Av. Infante D. Henrique, Armazém B

ATIRA-TE AO RIO
Não é bem Lisboa, mas é como se fosse. O Atira-te ao Rio tem uma vista deslumbrante para Lisboa e só pelo passeio de cacilheiro quase que vale a pena a investida. Situado em Cacilhas, Cais do Ginjal (na foto), este clássico da restauração da margem sul apresenta um rodízio de feijoada à brasileira, sábado ao almoço, que é um verdadeiro “show de bola”! O resto da cozinha até nem é nada do outro mundo, mas só pela vista, pelas caipirinhas e pelo feijoadão, vale bem a pena uma viagem Leiria-Cais do Sodré.

Cacilhas, Rua do Ginjal, 69

FAIA
Para terminar este pequeno roteiro, não podia deixar de recomendar uma boa Casa de Fado. Como se sabe, o que não falta em Lisboa são Casas de Fado com comida má, caríssimas e com fado duvidoso - tudo para inglês ver. No entanto, ainda há uma ou outra genuína, onde se come bem e onde cantam os melhores fadistas. O Faia, no Bairro Alto, é uma dessas boas casas e às quintas, sextas e sábados podemos ouvir o Ricardo Ribeiro (ele e o Camané são os maiores), a Lenita Gentil, o António Rocha e a Anita Guerreiro, grandes fadistas acompanhados pela guitarra portuguesa de Fernando Silva e pela viola de Paulo Ramos. Nesta casa segue-se à risca o “silêncio que se vai cantar o fado” e na ementa, só para dar um exemplo, têm uma trilogia de bacalhau (à Faia, à lagareiro e com natas e coentros) que é uma autêntica especialidade. O Faia está sempre cheio. Por isso, o melhor é reservar mesa com antecedência e confirmar se o Ricardo Ribeiro estará presente – não vá ele andar em concertos pelo mundo. E o Faia sem o Ricardo Ribeiro não sabe ao mesmo.

Rua da Barroca, 54-56

(Texto publicado na rubrica SABOR do Jornal de Leiria no dia 3 de Maio de 2013)

Sem comentários:

Enviar um comentário