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FEIRA DE MAIO

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Há já alguns anos que andava com esta fisgada: regressar à feira de maio para andar nos carrinhos-choque, dar uns tiros de pressão de ar (daqueles que dão direito a beber uma ginjinha), comer um frango assado e levar para casa um saco de farturas da Penim. Feira de maio, que é feira de maio, tem de ser com chuva e a um sábado à noite para sentir o pulsar da coisa. Dei entrada no recinto ali pelas traseiras da piscina municipal em direção ao Estádio e logo encontrei a velha barraca do Torrão de Alicante. Fiz uma ronda pela zona e não fiquei muito bem impressionado: só se safaram o expositor de louça da Bajouca e um outro com cestas, mochos e mobiliário do tempo da outra senhora. E duas ou três barracas com licores e doçaria regional. No meio das peúgas a 5 euros a meia dúzia, decidi que já era hora para jantar e fui em busca de um estabelecimento onde pudesse comer o tal frango assado. Junto ao palco (secundário, vim eu a saber mais tarde) existe a zona d...

ENTRE LEIRIA E LISBOA

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Há uns anos atrás, num daqueles jantares natalícios entre os amigos de sempre, ali para os lados das Cortes, comentava eu que já vivia há mais anos em Lisboa do que em Leiria e logo um dos companheiros lançou o veredicto: «Isso pouco interessa. Tu és de Leiria!» «Mas eu nasci na Figueira da Foz, sou natural de Monte Redondo e vivo há 17 anos em Lisboa…», disse eu. E ele: «Isso também não interessa, andaste no liceu, és de Leiria!» Mais leiriense, só mesmo quem nasceu na Casa de Saúde, viveu nos Capuchos, andou no Liceu e odeia a Académica… Em Lisboa há muitos Leirienses da minha geração. Há mesmo quem diga que os «marrões» foram para Coimbra, os estudantes para o Porto e os outros para Lisboa.  Nos meus primeiros anos em Lisboa, ali entre 1993 e 1995, houve mesmo quem organizasse periodicamente jantares na extinta Feira Popular só com Leirienses. Chamavam-se os jantares do «Enclave do Liz» e chegavam a ter perto de 100 pessoas por convívio e isto sem facebook, só por b...

LULULEMON

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ÁLBUM DE ESTREIA “FLYING FORTRESS” NAS LOJAS A 21 DE MAIO DE 2012! Tudo começou com um concurso de bandas em 2009 quando Pedro Ledo e Tiago Sales se juntaram num power duo demolidor para ganhar alguns trocos. Os blues eram uma referência para os dois músicos e daí até formarem os Lululemon foi um piscar de olhos. Com esta formação saiu cá para fora o EP Thee Ol’ Reliables (2010), disco onde a guitarra elétrica, a bateria e os sintetizadores ditam as regras, mas com muito fuzz e reverb em cima. Mais tarde junta-se à formação o Luís Matos para tocar guitarra barítono e o projeto começa a ganhar outra complexidade criativa. Os Blues alargam-se a outras sonoridades e o resultado é este arrebatador The Flying Fortress, disco dividido em IV Capítulos com muito Surfcore, Trashblues e Poscountry à mistura. Flying Fortress arranca com Blonde Weather e logo ficamos agarrados a um universo que nos transportará para parte incerta; pelo caminho vamos encontrando paisagens secas e repletas...

GUERRA CIVIL DE ESPANHA

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Antes do início da Guerra Civil de Espanha em 1936, a política externa portuguesa parecia estar bem definida. Como refere Nuno Severiano Teixeira no texto em análise, desde a «institucionalização do regime» em 1933, que Salazar já tem uma ideia sobre o caminho a seguir no campo da diplomacia e política externa: consolidar a tradicional aliança inglesa e desprezar o parlamentarismo da Sociedade das Nações. Mas é em 1935 que o governo de Salazar se afasta das questões continentais e afirma a sua vocação atlântica; reforça a aliança inglesa e a amizade peninsular e defende a integridade colonial – políticas conduzidas pelo próprio Salazar entre 1936 e 1947. A «questão espanhola» e o retorno à diplomacia bilateral passam a estar no centro da política externa portuguesa, mas era preciso não melindrar a Inglaterra (a integridade colonial estava dependente da aliança luso-britânica) com as posições tomadas em relação ao apoio que Salazar iria conceder à facção nacionalista do conflito em...

MADRID

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Na última mostra Kino passou um filme meio alemão meio turco, chamado Almanya, que tinha lá um miúdo turco que ao ir para a Alemanha só pensava em Coca-Cola. Pois, eu percebi muito bem a sensação: comigo passou-se o mesmo, mas em relação a Espanha. Quando em puto fui pela primeira vez a Madrid só não dei cabo da Coca-Cola disponível no aeroporto porque não calhou. O certo é que até hoje essa ideia permanece e até arrisco a dizer que não há no mundo Coca-Cola como a espanhola: garrafa das pequenas, verde, com copo largo cheio de gelo e limão. Isto tudo para dizer que há uns dias andei por Madrid. A capital espanhola há muitos anos que é visitada aqui pelo bloguista ocasional. Não quero entrar naquela discussão Madrid-Barcelona, mas que gosto mais de Madrid, lá isso é uma verdade. E acho que tem mais a ver com as vivências do que propriamente com as características de cada cidade. Um tipo afeiçoa-se mais a umas terras do que a outras. É o que é. Deve ser por gostar mais do Goya ...

COIMBRA DE MATOS [ENTREVISTA]

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Paciente: Portugal Diagnóstico: depressão desamparada Entrevista de Anabela Mota Ribeiro publicada na revista Pública de 4 de Março de 2012, reproduzida aqui na íntegra: Somos inseguros, imaturos, praticantes da transgressão na sombra, além de desorganizados, individualistas, garbosos, disponíveis. Nós, os portugueses, o que esperamos do chefe, do pai, do protector, é que decida por nós, que assuma a responsabilidade por nós, que saiba sempre a resposta. Mas que resposta para Portugal? O psicanalista António Coimbra de Matos faz o diagnóstico de um país deprimido, que, em crise, se olha desamparado. Coimbra de Matos nasceu em 1929 numa aldeia do Douro. É um dos mais prestigiados psicanalistas portugueses. No seu consultório há uma fotografia dos vinhedos, da terra sulcada, mesmo em frente à porta de entrada. Depois, olhando à esquerda, há a secretária, o divã, o cadeirão onde ouve; e folhas e livros e jornais em quantidade e em desalinho. À direita há dois pequenos sofás ond...

LUSO-TROPICALISMO

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Na comunicação intitulada «Portugal em África (1825-1974): Uma Perspectiva Global», Valentim Alexandre começa por referenciar uma teoria que poderia explicar sociologicamente a presença de Portugal em África: o Luso-Tropicalismo do brasileiro Gilberto Freyre dá o mote para uma reflexão objectiva da relação entre Portugal e o território africano no período compreendido entre 1825 e 1974. Mas como veremos mais adiante, outras correntes «justificaram» essa presença, nomeadamente algumas variantes do «darwinismo social». Antes de 1825, os territórios africanos serviam essencialmente para fornecerem mão-de-obra escrava, numa primeira fase (a partir do século XV) para as plantações de cana-de-açúcar da metrópole, Madeira e São Tomé e Príncipe e, mais tarde, expandindo-se para o Brasil com o ponto alto no século XVIII na exploração de ouro. Com o fim do sistema económico luso-brasileiro, urgia encontrar um «novo Brasil» em África. Sá da Bandeira terá sido a figura política na altu...